
Porque ninguém imagina que aquilo que um dia deu sentido à sua vida possa, lentamente, começar a engoli-la.
Há mais de vinte anos eu e Lincon trabalhamos publicamente com espiritualidade e mediunidade.
Nesse tempo, já vimos coisas muito bonitas. Gente que chegou despedaçada e encontrou algum sentido para continuar. Famílias reconciliadas. Pessoas curadas em momentos em que nenhuma solução material parecia suficiente. Experiências mediúnicas que, ainda hoje, eu teria dificuldade de explicar em palavras.
Mas vimos outras coisas também.
E são justamente essas que demoramos quase vinte anos para começar a falar abertamente.
O pior é que, quase sempre, começa bonito.
A pessoa descobre a mediunidade… Encontra uma casa. Começa a estudar. Conhece pessoas que parecem falar a mesma língua que ela. Pela primeira vez, experiências que carregou durante anos começam a fazer sentido.
Então aparecem os primeiros trabalhos… Os primeiros atendimentos…
A primeira vez que alguém chora e diz: “Você não imagina o quanto isso me ajudou”.
E aquilo toca um lugar muito profundo. Você percebe que pode ser útil, talvez tenha até uma ‘missão’. Olha que legal!
Talvez finalmente tenha encontrado aquilo que veio fazer aqui…
É justamente por isso que é tão difícil perceber quando alguma coisa começa a dar errado.
Porque ninguém imagina que aquilo que um dia deu sentido à sua vida possa, lentamente, começar a engoli-la.
Nós somos ensinados a ter medo dos obsessores. Do espírito agressivo. Do encosto. Do assediador. Da entidade que ameaça, perturba, provoca pesadelos, deseja vingança. Esse já vem praticamente com uma placa pendurada no pescoço.
Para esses, criamos defesas.
Mas há um tipo de relação espiritual para a qual quase ninguém nos ensinou a olhar.
Aquela que está fazendo mal a você, está só “despirocando” a sua vida, mas que você continua chamando de “missão”.
Essa é muito mais difícil de identificar, e faz a pessoa ficar na “defensiva” só de ler a respeito do assunto (não nos importamos necessariamente com a lógica de uma ideia, e sim com o que ela nos faz sentir - então se alguém parece estar questionando nossas crenças mais íntimas, ao invés de ouvirmos com calma, até para criar uma fé ainda mais sólida e saudável, logo já condenamos e descartamos; o que é paradoxalmente uma demonstração de fragilidade dessa mesma fé, e não de convicção tranquila dela). Porque talvez não exista espírito algum dizendo que quer destruir você.
Talvez ele até queira ajudá-lo (de verdade!). Talvez fale com carinho, talvez tenha acertado coisas impressionantes, talvez você o ame e isso seja recíproco.
Talvez ele seja, inclusive, bem-intencionado. Como muitos “coachs” de internet podem ser bem-intencionados quando você procura seu trabalho e aceita ajuda deles. Você deu permissão, e ele vai fazer o que pode. O problema raramente vem vestido de lodo e lama, geralmente ele está diluído em relações assimétricas do dia-a-dia, em que nem sempre há uma intenção declaradamente “perversa” por trás. Mas isso também não significa que a solução que o “coach” achou para a vida dele vai ser totalmente saudável para a sua também. O problema não está em tentar, está em não questionar e aceitar tudo de maneira fanática. O “coach” também está aprendendo, também precisa conhecer limites, também precisa entender que nem tudo é sobre o sucesso do trabalho dele ATRAVÉS de você: Às vezes o seu sucesso seja sobre o quanto o caminho que escolheu está sendo equilibrado e [verdadeiramente] realizador para você.
E ainda assim alguma coisa pode ter adoecido nessa relação.
Esse é o ponto sobre o qual quase ninguém gosta de falar, porque relações abusivas raramente começam parecendo abusivas.
Elas começam pedindo pouco: Mais um atendimento, mais uma noite, mais uma pessoa, mais uma tarefa.
Você está cansado, sobrecarregado, nem comeu direito, não teve tempo de cultivar afeto nem dentro do próprio lar, mas alguém precisa de você.
Você tinha outros planos, mas surgiu uma urgência espiritual.
Precisava trabalhar, cuidar da família, descansar, ganhar dinheiro, simplesmente ficar sozinho por algumas horas — mas existe uma “missão”.
Então você vai.
No começo, até volta feliz.
Depois de algum tempo, porém, você começa a perceber certas coisas.
Sua vida financeira nunca se organiza, seu corpo está cansado de um jeito que dormir já não resolve. Você está mais sedentário(a) do que imagina. Você já não vê seus amigos há muito tempo - isto é, se é que sobrou algum. Seu casamento ou seus relacionamentos começam a receber apenas aquilo que “sobra” de você.
Nem a conta da operadora do seu celular você lembra de pagar, a não ser que esteja no débito automático.
Seus projetos pessoais ficam sempre para depois (e, honestamente? Quantos deles você realmente já conseguiu realizar? O tempo está passando… E você aí achando que ainda está tudo bem, como se nascer na Terra não fosse uma oportunidade raríssima e você não merecesse honrar mais essa oportunidade).
Você olha para pessoas da sua idade construindo coisas, viajando, prosperando, descansando, tendo uma vida, e sente até VERGONHA de desejar um pouco daquilo.
Afinal…
Você não veio para servir?
Então racionaliza, usando palavras bonitas e todos os conceitos que você aprendeu na aula: É uma “fase”, uma “prova”, é o “preço da missão”, é um “resgate”.
Engraçado, uma “fase” que NUNCA passa. Fases passam, padrões ficam. Será que é apenas uma “fase” mesmo?
- “Ah, mas é porque o trabalho espiritual está ‘muito intenso’”.
- Oh, que lindo vagalume de luz você é, todo arrebentado, mas acreditando fielmente que está aqui para “salvar todo mundo”.
- “Não, mas talvez seja inveja”.
- Inveja de QUÊ, meu anjo? O que está sobrando da sua vida para ser invejado?
- “Talvez seja ataque”.
- Curioso, porque pessoas com posição política, religiosa, intelectual e cultural muito mais relevante do que a sua (com todo respeito, mas é a realidade), e que causam muito mais “impacto” (tanto para o bem, quanto para o mal), não estão imobilizadas por aparente “ataque” nenhum – ainda que tivessem muito mais motivo para estarem se preocupando com isso do que você. Mas quem está sempre com um “alvo nas costas”, e por isso adia o que precisa fazer, é quem?
- “Talvez sejam os obsessores percebendo que você está evoluindo e ‘chamando a atenção’”.
- Porque, admitamos, por mais que você se esforce de todas as maneiras para parecer humilde, lá no fundo você aprendeu a se achar mais importante do que todos à sua volta. Por isso você sofre “ataques” e os outros não. Não é por conta de alguma conduta autodestrutiva sua, é porque os “perseguidores” identificaram “a sua luz à distância”.
Que lindeza, chuchu!
E assim pode acontecer uma coisa ironicamente cruel:
Quanto pior sua vida fica, mais razões “espirituais” você encontra para continuar exatamente igual.
Pense nisso por alguns segundos.
Se você está cansado, precisa “perseverar” - é proibido tirar um cochilo preguiçoso na rede. Se está sem dinheiro, precisa aprender desapego - é proibido empreender com algo que você acredita. Se o relacionamento está desmoronando, talvez aquela pessoa não compreenda sua “missão” - não pode ser simplesmente que o excesso de contemplação e serviço tenha tirado tempo para você aprender a conviver com os vivos também. Se está deprimido, precisa “elevar o padrão vibratório” - nunca pode ser falta de Vitamina B12, ausência de idas ao médico (aliás, quando foi a sua última consulta?), trauma não-resolvido ou o simples peso das injustiças sociais. Se quer descansar, precisa “vigiar a preguiça”. Se pensa em diminuir os trabalhos, talvez esteja “cedendo às forças que querem afastá-lo do caminho”.
Nada pode estar “simplesmente ruim” mesmo, tudo tem que virar poesia catequética para se justificar na sua vida. E se, ao menos uma vez, admitir que a coisa está “simplesmente ruim” não fosse justamente a chave que você estava precisando (e nem sabia) para de fato mudar de vida? E o melhor, nem precisa abandonar a sua fé! Pode continuar com ela exatamente como está! Os únicos ajustes que precisam ser feitos são na sua postura, não nas suas crenças.
Mas… “Se começa a desconfiar de tudo isso…
Pode ser o ego”.
É uma armadilha quase perfeita.
Porque existe uma explicação capaz de transformar cada sinal de sofrimento/abuso em mais um motivo para permanecer.
Depois de mais de vinte anos convivendo com médiuns e trabalhadores espirituais, foi isso que começou a nos assustar.
Não eram pessoas más, eram justamente as pessoas boas.
Generosas, sensíveis, disponíveis. Gente que se comove com a dor alheia e que dificilmente consegue deixar alguém sem resposta.
O tipo de pessoa que diz “sim” quando já deveria ter dito “não” cinco vezes.
E algumas delas começaram a “desaparecer” dentro da própria suposta ‘missão’.
Que espiritualidade é essa que o preço para você ficar acompanhado dos mortos é ficar sem nada nem ninguém entre os vivos? Acha MESMO que quem te ama (nesta dimensão ou em qualquer outra) iria querer isso para você? Acharia saudável? Responsável? Ético?
Além disso, se alguém quisesse lhe prejudicar um dia, começaria justamente fazendo você estar abandonado(a), solitário(a), sem apoio. Não do invisível, mas do VISÍVEL TAMBÉM.
Que chances você teria, aqui nesta sociedade insensível e ególatra, pensando diferente de todo mundo e ainda contando apenas com a própria sorte no mundo, sem apoio, amigos, amparo e estrutura? Aliás, não é justamente por falta de estrutura e recursos que você está adiando indeterminadamente a materialização daqueles sonhos que a sua alma tanto queria trazer aqui para a Terra?
Olhe para você, cada vez mais imerso(a) em assuntos espirituais e, não obstante, cada vez mais isolado(a)! Esse era o “grande plano” de “grandes seres” que “lhe amam incondicionalmente” para você? Desculpe, mas ou eles estão de sacanagem lhe enganando ou é você que está captando o sinal errado. Ou filtrando esse sinal com a crença distorcida. Se alguém encarnado, de carne e osso, “sequestrasse” a sua atenção e só pedisse para você fazer o que ELES querem o TEMPO TODO, enquanto a sua vida se enfraquece ao passo que apenas lhe prometem “premiações metafísicas futuras”, sem garantia alguma, isso não levantaria uma baita ‘bandeira vermelha’ para você? Não acharia estranho?
Então por que é só tirar o corpo físico deles que, automaticamente, já está “tudo bem” e plenamente aceitável?
Chega um momento em que sobra uma pessoa muito útil para o mundo espiritual e quase desconhecida de si mesma.
Há pouco tempo recebemos uma mensagem que me atingiu de um jeito particularmente incômodo.
Um homem contou que havia conhecido, na praia, um ex-pai de santo. Segundo ele, aquele homem tivera seu terreiro e chegara a viver praticamente para a espiritualidade e para os trabalhos. Estava disponível para todos, o tempo todo, até começar a passar por cima da própria saúde mental.
Em algum momento, quebrou.
Ficou tão cansado, tão exausto, tão sozinho que, no caso dele, recorreu às “anestesias” disponíveis. Vieram o álcool, outras fugas, as apostas em bets (medida desesperada para recuperar alguma dignidade material, diante de tanto abandono e escassez que sentia). Chegou a perder 85 mil reais em poucos dias. Quando os dois se encontraram, ele estava vendendo sacos de lixo para uma clínica de reabilitação na qual ele próprio havia se internado.
Antes de ir embora, ainda cantou alguns pontos para aquele homem e sua esposa.

Confesso que essa imagem ficou comigo.
Fiquei pensando:
Em que momento servir ao Sagrado passou a significar vulnerabilizar a pessoa que serve?
Talvez você pense que estamos falando de casos extremos.
Espero que sim.
Mas existem alguns testes e perguntas bastante simples, que reunimos, para você saber se está entrando num caminho assim (ainda que no começo) mesmo sem perceber e mesmo sem querer, super bem-intencionado, acreditando estar dando apenas o melhor e mais puro de si.
Eu sei que esse assunto incomoda.
Nós dois sabemos.
Sabemos porque estamos há mais de vinte anos pesquisando atentamente esse meio.
Sabemos o que acontece quando alguém toca em determinadas crenças. Sabemos que algumas pessoas vão ler isto como um ataque à mediunidade. Outras dirão que estamos estimulando desconfiança dos guias. Haverá quem diga que estabelecer limites é egoísmo, que questionar é arrogância e que o verdadeiro trabalhador espiritual simplesmente “serve”; como se a métrica do plano invisível para reconhecer o valor das pessoas, com a ética mais avançada disponível “lá”, não fosse muito superior à lógica utilitarista pós-revolução industrial.
Conhecemos esse vocabulário e talvez até por isso tenhamos demorado tanto para falar…
Mas chegou um momento em que o silêncio começou a nos parecer mais irresponsável do que o incômodo.
Ainda assim, há coisas que não podemos desenvolver adequadamente aqui.
Algumas experiências exigem contexto, algumas conclusões precisam de páginas - não de frases recortáveis numa rede social ou página de site. E existem formas de reconhecer, testar e principalmente reorganizar essas relações que seriam perigosamente simplificadas se tentássemos transformá-las numa lista de internet.
Então eu e Lincon nos sentamos e nos dedicamos a escrever tudo, enquanto a coragem ainda nos revestia e enquanto não desistíamos de apagar tudo para não querer “incomodar” certas convicções fanáticas.
Se você leu até aqui e NADA disso encontrou eco na sua vida, sinceramente, fico muito feliz.
Mas talvez não tenha sido assim para muitos.
Porque, se houver alguma coisa errada, talvez o perigo não esteja em você deixar de servir.
Talvez esteja em passar mais dez anos servindo da MESMA maneira, sem mudar nada na lógica, no posicionamento e na gestão desse servir. Quer servir de verdade, com mais eficiência e ainda com mais qualidade de vida e dignidade?
Não seria o ‘melhor dos mundos’?
Foi para quem reconheceu esse desconforto que deixamos o livro disponível de forma acessível.
Afinal, ser leal a um caminho espiritual significa percorrê-lo da mesma maneira para sempre ou amadurecer na forma de caminhar também?
Há coisas que conseguimos dizer abertamente aqui, mas as outras estão no livro.
E, se alguma parte deste texto pareceu familiar demais, talvez valha a pena descobrir o motivo… E podemos lhe ajudar.
Porque uma relação espiritual saudável deveria auxiliá-lo a viver.
Não exigir que você desapareça para que ela continue existindo.

A Ética Antes do Céu
Por uma mediunidade que não exige a destruição de quem serve.
Yuri Levy e Lincon Felipe Lima Silva
Prefácio de Paola Aniello
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